Mbanza Kongo, património da Humanidade. E daí?

O centro histórico de Mbanza Kongo, comemora, hoje, 08 de Julho, o terceiro aniversário da sua elevação à categoria de Património da Humanidade.

Mbanza Kongo, foi a maior cidade da África sub-equatorial, muitos anos antes da chegada dos exploradores europeus em África.

O que esperar de um lugar, reconhecido como Património da Humanidade?

Talvez a firmeza no valor histórico, cultural, arqueológico e arquitectónico. 

Talvez a preservação das manifestações, rituais, mitos e lendas locais.

Talvez a sabedoria ancestral e o empoderamento cultural do seu povo.

Não bastam as recomendações da UNESCO ao Estado angolano relativas à conservação, valorização e divulgação a serem cumpridas, para a não desqualificação de Mbanza Kongo.

A preocupação com a verdadeira identidade é muito mais profunda.

Afinal, são milhares de anos de história e acontecimentos. 

À sombra do roteiro ancestral com património perdido

Há um ano, fui convidada a visitar Mbanza Kongo. 

O anseio pelo reencontro com a ancestralidade era tanto, que pairava na minha mente, uma imagem de como seria o grande Kongo dya Ntotila.

Depois de um longo percurso, chegámos! Uma visita guiada, um roteiro ancestral e o contacto directo com os anciãos do Lumbu.

A chegada ao local foi histórica, porém preocupante. Apesar de histórica, a realidade foi bem diferente do esperado. 

Disse para mim mesma “quero mais de Mbanza Kongo”. 

Falo da valorização e preservação da verdadeira identidade Kongo. O meu SENTIMENTO DE PERTENÇA não me permite ver e deixar estar.

Por isso, deixo nas próximas linhas algumas propostas.

Arquitetura e decoração do Tribunal Costumeiro “Lumbu”

Os monumentos de um povo são o reflexo da sua identidade como Nação e, como portadores de mensagens do passado, são inspiração para as gerações futuras, são o testemunho vivo e actual do desenvolvimento histórico de um País. 

É necessária autenticidade na reabilitação do Património Histórico.

Como toda a antiga civilização e Reinos Africanos, acredito que o Kongo também tem/teve uma arquitectura própria. 

Diferente do que se pensa, o uso do adobe ou do pau-a-pique não é atraso civilizacional. Adobe é um dos mais antigos materiais de construção e foi amplamente utilizado nas civilizações mais antigas africanas. Adobes são tijolos de terra crua, água e palha e algumas vezes outras fibras naturais. Continua a ser um material usado no Norte de Angola, regiões do Antigo Reino do Kongo. As suas vantagens são inúmeras, desde o baixo custo, conforto térmico, uso de material regional, pode ser preparado no próprio local da construção, rapidez na preparação dos tijolos e é muito sustentável. 

O actual tribunal costumeiro está com uma arquitetura que nada tem que ver. 

Contam os mais velhos, que os conhecidos “Jangos” serviram de assembleia para a tomada de decisões nos vários reinos. E o simbolismo da “roda” no momento das reuniões deve prevalecer viva. 

É desnecessário recorremos a cadeiras e mesas chinesas para o adorno do tribunal. Ainda temos madeira e bons carpinteiros locais. 

O traje das Autoridades tradicionais

O traje vai muito além da beleza. Os padrões impressos nos tecidos correspondem a nomes, provérbios ou ideias. Elas estão relacionadas com a beleza, a religiosidade e a identidade de um povo, com a ancestralidade. O Kongo sempre foi forte em vestimentas. 

Os panos do Kongo, o Kuba, já não servem? 

Por que usar o tecido kente do Gana?  

Por que as gravatas e sapatos?

Pequenos detalhes importam.

Nomes originais na língua Kikongo 

A língua continua a ser o principal símbolo de qualquer cultura, povo ou etnia. Quando uma língua morre, ela leva consigo toda a memória que está dentro dela. Quando as nossas línguas ficam em silêncio, perdemos a nossa conexão e os nossos meios antigos de conhecer a Terra. Língua é cultura, língua é uma expressão de uma cosmovisão e isso é uma maneira de ver o mundo. 

Se as línguas desaparecerem (…) as memórias que elas carregam irão desaparecer, assim como o povo. Por exemplo, escreve-se “Nkulu Mbimbi” e não o aportuguesado “Kulumbimbi”.

Gastronomia

Cultura também é o que comemos. Não vou ao Kongo comer batata frita.

Kimpa Vita

Falta a devida homenagem ao símbolo da Resistência Kongo, Kimpa Vita.

Existiu Kongo antes da chegada dos portugueses? 

Se sim, onde anda a preocupação com esta história? Com a “catolização” do Kongo, dá-se a entender que o Kongo apenas se tornou o poderoso Kongo com a chegada dos europeus. É necessário pegar nas histórias, mitos e lendas desta região e transformá-las em atracções turísticas, envolvendo a comunidade toda.

E daí?

É necessário agirmos todos.

Parabéns Mbanza Kongo, Património da Humanidade!

Reproduzir vídeo
Spread the love